domingo, 22 de abril de 2018

Eleições 2018 e a Questão Brasil


Leonel Brizola durante a Campanha da Legalidade, com fuzil na mão
Por Álvaro Hauschild

O Brasil passa, atualmente, por uma crise de natureza que supera todas as questões corriqueiras, como a economia, a estrutura sócio-política, a moral, etc. Todas estas questões, cada vez mais específicas e individualizadas, separadas de todo o resto nos debates e nas intenções de intelectuais, políticos e do próprio povo, são, na verdade, manifestações de um mal maior, portanto devem ser estudadas como elementos interligados e subjacentes a princípios transcendentes.

A crise do Brasil é uma crise espiritual, que vem crescendo ao longo da história, 1) em primeiro lugar por culpa da inação do povo e das autoridades diante das rédeas do país. O Brasil nunca teve um projeto para robustecer por si mesmo e tomar seu espaço na conjuntura internacional e para inspirar as massas enraizadas em uma identidade própria. Houve na história, no melhor dos seus momentos, um Getúlio Vargas, que, contudo, não foi capaz de compreender o Brasil no seu todo nem erigir um projeto nacional-desenvolvimentista suficientemente soberano, para sanar as contraditoriedades internas e sua posição no cenário internacional. Ao mesmo tempo, o povo brasileiro, que, por lógica, deveria ter ativamente participado para resolver seus problemas diante da fraqueza das autoridades, permaneceu entregue à passividade cultural e aos prazeres do consumismo fácil, do oportunismo e da selvageria anti-patriótica. E, 2) em segundo lugar, a crise espiritual do país vem recebendo intensiva influência de fatores externos, cujo objetivo é destruir toda possibilidade de união e cura dos seus problemas internos, que redundaria, certamente, no surgimento de um poderoso adversário internacional e, ao mesmo tempo, de um país-continente capaz de proteger os recursos naturais e étnicos, não apenas do seu país, mas também de seus vizinhos parceiros.

Visto isto, se os brasileiros, que compõem as vítimas de uma crise tanto interna quanto externa, quiserem resolver suas próprias vidas, sanar suas angústias internas, subjetivas, eles devem atentar para os fatores que contribuíram para sua degeneração completa, e lutar para resolvê-las corretamente, com um olhar amplo sobre o todo corpóreo, tal como a medicina antiga, que descobre na dor de um órgão a decadência de um corpo por inteiro, que muitas vezes tem origem lá onde menos se esperaria quando se lança um olhar muito breve e localizado.

Segundo nossa introdução, podemos diagnosticar os fatores para nossa crise, que se multiplica desde manifestações subjetivas, individuais de cada brasileiro, até os níveis institucionais e sociais. Tudo caduca e sofre, tudo degenera e se decompõe. Estes fatores se resumem, tanto interna quanto externamente, tanto por parte das autoridades quanto por parte do povo, no que podemos definir como o problema da soberania do nosso país. Todos os fatores presentes na nossa crise são fatores de decomposição da soberania, isto é, do auto-controle sobre recursos, instituições e atividades sociais diante das contradições internas e das interferências externas. Os brasileiros, porém, estão inativos; enchem as ruas, as mensagens pela internet, as redes sociais, claro, mas até agora essas convulsões só trouxeram desordem generalizada, confusões e descrenças, promotoras de fakenews e divisões internas. A inação do brasileiro é com relação a um esforço inspirado e ascendente capaz de arquitetar uma rebeldia eficiente e tomar o controle de sua situação. E é aqui que os problemas, para além de todos os elementos expostos, se tornam manifestações de um problema espiritual.

A Figura do Líder

O povo brasileiro sente, consciente em alguns e inconscientemente em outros, a falta que temos de figuras de liderança, que inspire e lidere, guiando as massas à luz, à solução dos seus problemas subjetivos e, consequentemente, objetivos. Ao mesmo tempo em que temos esta falta, a ausência, temos a necessidade dessa figura, pois só ela é capaz de tirar as massas do buraco individual que sufoca cada um, reunindo-as a uma unidade orgânica capaz de articular soluções em conjunto. É só o líder, um homem com autoridade acima de todos, que é capaz de uma tal façanha.

Mas, ao mesmo tempo que o povo sente esta carência, ninguém do povo toma para si, seja em grupos aristocráticos ou em personalidades individuais, a missão de liderar. Todos querem ser liderados, e se atiram passivamente a toda personalidade agressiva e odienta que se apresenta no cenário público. Esquecem que a liderança se faz de dentro para fora; para que haja líder, é necessário que, no mínimo, uma pessoa, em uma atividade suficientemente ascética, se sacrifique em nome de todo um conjunto e um ideal. O líder é um sacrifício aos deuses, e não surge sem dor.

O desconhecimento disto, ou então a negligência do povo para com o que realmente está em jogo, o faz passivamente adorar personalidades vazias que oferecem em troca da adoração qualquer coisa de fútil e de medíocre: a fama, o dinheiro, o poder em geral ou então o prazer de ser idolatrado junto dele, conforme os vícios e os pecados que cada um carrega consigo.

Surgem então figuras falsas de todos os lados, cada um representando um grupo inorgânico, como o Lula, da esquerda, e o Bolsonaro, da direita. Uma maior plurificação do debate, cada vez mais vazio, tornam possível o surgimento de figuras ainda mais vazias, cada vez mais vazias, como é o caso do Amoêndo do partido Novo, representando os anarco-capitalistas. Cada um tem uma bandeira completamente aleatória: um é símbolo da “esquerda” (entre aspas, porque não existe uma tal “esquerda”, com ideais e objetivos suficientemente bem delimitados) e grita a plenos pulmões pelo progresso do feminismo; outro, da “direita”, pela pátria; outro, ainda, pela preservação individual. Diante dessa constante plurificação, a questão que se deve fazer, em primeiro lugar é: em que perspectiva estas bandeiras conflitantes realmente conflitam entre si? O silêncio como resposta, a dúvida, deve nos fazer refletir sobre o que realmente está em jogo nestas discordâncias mascaradas; poder-se-á descobrir a completa ausência de planos de governo em ambos os lados, o que de fato representaria a realidade de cada um dos grupos, como a “esquerda” e a “direita” e outros, uma vez que não há unidade nem plano de governo para quaisquer desses grupos. O que há, apenas, são interesses subjetivos e completamente fragmentários, disputando pelo poder.

A figura da liderança não deve tomar partido de quaisquer interesses fragmentados, pois seu papel é liderar o todo e não apenas impor os interesses de uma parte. Neste sentido, deve se colocar para além desses interesses e buscar iluminar o povo sobre a natureza da unidade política, sobre as relações internas entre os elementos, distintos entre si. O líder deve ter a missão de pôr cada elemento em seu lugar, de harmonizar o arranjo como um todo, alocando as notas cada qual para formar uma música, uma canção nostálgica e sacra, acabando, assim, com o caos negro e cacofônico que configura a desunião e a crise interna.

O líder deve tornar lúcido ao povo como as partes, estando no mesmo universo, possuem sua importância única e exclusivamente na medida em que participam para a boa ordem da música. Se porventura alguma parte se tornar essencialmente caótica, histérica, ela deve ser tratada como um câncer, uma vez que sua atividade colabora para a dissolução da unidade e, consequentemente, para a aniquilação de cada brasileiro enquanto tal.

Neste sentido, o Brasil precisa que cada um dos brasileiros tome para si a tarefa de buscar entender nossos problemas e de agir como se fosse um líder, primando sempre pela ordem geral, não atendendo a qualquer chamada individual, mas buscando resolver as contradições internas. Burcar iluminar, intelectual e politicamente, todos aqueles que se encontram na escuridão, isolados em paranoias e outros fenômenos subjetivos. A consciência do homem que toma para si essa tarefa se eleva e supera suas contradições individuais, alcançando níveis supra-individuais – e isto, por si só, já representa uma vitória espiritual, pelo menos de alguns homens que, na medida em que isso ocorre, colaborarão ativamente para o resgate da pátria como um todo. Pois um homem desperto é luz para outros que despertarão.

O líder, convenhamos, requer estabilidade emocional e intelectual, determinação, coragem, auto-confiança, raciocínio intuitivo analítico e sintético, e todas estas são características essencialmente masculinas.

No caso do Bolsonaro, porém, é importante lembrarmos de alguns detalhes. O povo enxerga nele uma figura paternal, que luta pelo reconhecimento generalizado da figura masculina; os sinais que ele dá são a agressividade, única e exclusivamente. Acontece que a agressividade não é uma característica essencialmente masculina, ela apenas acompanha alguns atos masculinos, é secundária. Características essencialmente masculinas são, por exemplo, a capacidade intelectual de governar e erigir harmonias científicas, a coragem (que em grego, andreia, vem justamente de andros, homem masculino), a constância e a auto-confiança, a estabilidade, a determinação. Nenhuma dessas características, fundamentais para um líder, está presente na figura e nos ideais do Bolsonaro. O líder é, antes de tudo, alguém que lidera, e para isto deve haver algo que é liderado: o povo. O apelo do Bolsonaro pelas forças armadas, pela violência da polícia, porém, não está harmonizado com o objetivo de alguém que estaria liderando o povo. Bolsonaro, juntamente de Paulo Guedes, quer a independentização do Banco Central, a liberalização da economia brasileira e a diminuição do Estado brasileiro, cujo resultado será o abandono de todo um povo diante de feras capitalistas do mercado internacional. É necessário que o povo entenda que a violência promovida pelo Bolsonaro por meio de forças armadas é única e exclusivamente com o fim de defender a ordem do mercado internacional contra as possíveis revoltas populares, uma vez que o resultado das políticas dele será nada além de pobreza extrema da grande maioria, acentuando a concentração de renda no país que já tem a maior concentração de renda do mundo inteiro.

Bolsonaro promove uma violência de cima para baixo, que sufoca as manifestações populares contra elites sanguessugas. É o tipo de violência que contradiz totalmente a promovida por um líder do povo, que clama por uma violência de dentro para fora, isto é: uma violência que sai do braço do povo e esmaga os inimigos dele, que devem ser vistos como externos à pátria. E o mercado dos acionistas internacional, dos banqueiros, dos agiotas internacionais, de todos os mega-empresários que visam um lucro puramente individual (o que significa que eles se colocam de fora da comunidade, enquanto idios, de onde a palavra “indivíduo” e “idiota”), não fazem parte dessa comunidade; se elas mantêm algum tipo de relação com essa comunidade e que beneficiam a elas, por meio de lucros, elas são o câncer e estão enriquecendo às custas do sofrimento generalizado de toda uma pátria.

O líder é uma figura que deve servir de exemplo. O líder é alguém que é seguido, não alguém que arrasta seus governados. Ele deve, antes de tudo, ser um asceta, não se sujar com os excessos das elites, buscando o que Aristóteles chamava de “mediania”, o meio termo que mantém a alma estável e longe de vícios que poderiam escraviza-la. É alguém que se põe na primeira fileira da falange, e não alguém que se esconde atrás de seus governados como se eles fossem mera massa de manobra para atingir objetivos pessoais.

Neste sentido, a única figura que surgiu nas últimas décadas, após Leonel Brizola, foi Ciro Gomes, em seu momento decisivo, como alguém que se põe a servir de exemplo para um povo sem figura paterna. Tendo recusado salários dos cofres públicos, a moradia nos aposentos do governo em Brasília, onde as famílias são servidas por mordomos e mil outras comodidades, foi governador e ministro, obtendo ótimos resultados no Ceará ao apostar na educação da juventude para a redução de mazelas sociais. Sua postura nas palestras em todo o Brasil, e fora dele também, denuncia uma relação erótica para com o povo brasileiro, mantendo um cuidado diante daquilo que analisa e sobre o qual discute, fazendo sempre apelo à elevação do olhar daqueles com quem debate, com vistas a observar o cenário como um todo, de cima. E a governança é uma atividade erótica, senão mística, entre líder e liderados. Não há aparato mecânico que construa (sistemas do direito, por exemplo) nem aparato cognitivo (ciências políticas e sociais, por exemplo) que traduza e compreenda essa relação profunda de confiança entre mestre e discípulo, entre líder e liderado, entre pai e filho. A governança é um fato espiritual do mundo como qualquer fenômeno da natureza, que independe dos nossos conheceres e quereres.

É neste misticismo que se funda a religião e a civilização, separados nas ciências, mas inseparáveis na realidade. O apelo de Bolsonaro por “Deus, pátria e família” soa, então, muito controverso, uma vez que permanece apenas na palavra, muito longe dos seus atos concretos. Seu governo extinguirá Deus, pátria e família. Seu governo será o maior inimigo de toda relação profunda e mística que subjaz na vida dos brasileiros. Extinguirá Deus porque destruirá as relações naturais de confiança para instaurar o Direito consuetudinário anglo-saxão e abrirá a pátria para o mercado internacional, fazendo dissolver as comunidades tradicionais e religiosas que ainda abundam no nosso país. Sumirá nossa pátria porque tudo que seu governo fará constitui a destruição de nossa soberania. E dissolverá nossas família pelo mesmo motivo que elas vêm se dissolvendo há décadas: a educação dos filhos será única e exclusivamente rendida aos interesses do mercado, e assim seguirão as universidades; não haverá tradição familiar, cada indivíduo será, na família, um elemento separado e independente da família, como quer o mercado. Essa decadência da família é a última que ocorre, tendo iniciado lá quando se instituiu como conceito de família apenas a família nuclear (pai, mãe e filho, sem avós, tios e primos), que também colaborou para o surgimento de uma classe média dependente de um mercado globalista e apátrida.

A Soberania

Surpreendentemente, o mais óbvio dos aspectos concretos de nossa crise brasileira, a crise da soberania nacional, é o menos compreendido, onde há mais confusão entre o povo e, até mesmo, entre políticos e intelectuais.

Parece que há uma enorme venda negra sobre os olhos do Brasil que tape um olhar adequado à questão da soberania. Pois ninguém percebe ainda que, para resolvermos nossos problemas internos, precisamos sobretudo de autonomia nas decisões sobre o que ocorre dentro de nosso país. Caso este fosse um aspecto perceptível, jamais haveriam projetos como os da chamada “esquerda” nem como os da chamada “direita”, pois ambos os espectros parecem ser máquinas sociais perfeitamente construídas para a destruição da soberania. De um lado, as ideologias vazias das ciências sociais, o subjetivismo intelectual, o identitarismo neo-kantiano das intermináveis vertentes feministas e de movimentos LGBT, que contribuem para a dissolução das identidades brasileiras e, ao mesmo tempo, para a criação de identidades avulsas e contingentes, de caráter universalista e global: a consequência disso será, obviamente, a universalização dos ideais “ocidentais” e a dissolução de qualquer unidade nacional, condição de possibilidade para qualquer nível de soberania nacional. De outro lado, a crença absurda de uma “mão invisível do mercado” capaz de regular as relações sociais e a diminuição do Estado, o que significaria um enfraquecimento para lidar com quaisquer influências externas, desde as culturais, intelectuais, científicas, até as de força – como demonstrado pelo exercício dos EUA na Amazônia nos anos recentes, pelos grampos da CIA e NSA, pela divulgação de agentes dessas organizações em importantes cargos brasileiros no governo e nas mídias, pela nitidamente forçada privatização de nossas indústrias e recursos naturais (inclusive para empresas como Nestlé e Coca-Cola, no caso da água dos aquíferos).

Ambos, direita e esquerda, despontam como duas mega-frentes que apenas se contrapõem no discurso, enquanto colaboram intensamente na prática. O combate entre essas duas frentes é, obviamente, conscientemente imposto pelas elites, com o fim de criar a ilusão de que são dois polos opostos, uma sendo “o bem” e outra sendo “o mal”, dependendo de que lado se está. Isto anestesia o raciocínio de todas as classes e arrasta todo o povo para lutas fratricidas sem significado algum. É evidente que, assim, os assuntos mais importantes ficam de lado; e conforme informações surgem diariamente por todos os meios, elas vão obscurecendo cada vez mais o debate, deixando apenas ao ódio mútuo e à violência, à desconfiança generalizada, o império da situação.

É necessário, pois, pensar a soberania. Afinal, estamos todos no mesmo barco. Ou melhor, no mesmo corpo. É preciso entender isso para que se descubra o verdadeiro inimigo. Os contos antigos, de Vladivostok à Cidade do Cabo, da Groenlândia à Austrália, do Ártico à Terra del Fuego, todos possuem uma sabedoria muito útil à nossa realidade contemporânea. Os contos a que me refiro são aqueles que contam a história de um mercador ou um viajante que chega em uma cidade pacata e ganha a confiança de algumas pessoas importantes; e tendo conhecido a estrutura da comunidade, quem manda em quem, depois de ter se inteirado dos vícios e das virtudes de cada uma das pessoas, trata de divulgar mentiras de um para outro sobre cada um deles, e o faz com tal maestria que, em questão de tempos, está instalada uma guerra interna. O mercador financia então as armas e, dada a vitória de alguém, cobra a retribuição, escravizando a nova autoridade da comunidade aos seus interesses mercantis.

Pois é isto o que ocorre no Brasil. As ideologias intelectuais identitárias neo-kantianas e/ou universalistas e atomistas são inoculadas no nosso país por meio de intelectuais, jornalistas e políticos estratégicos, e mais recentemente por empresários que disseminam vídeos mal-intencionados ou com informações falsas em whatsapp, transformando a opinião pública (a este ponto chegamos!). É ponto pacífico entre intelectuais decentes que o neoliberalismo (que se alimenta das confusões citadas acima) é uma ideologia espalhada em países periféricos (América Latina, Europa continental, Rússia, Irã, Síria) a partir dos países de centro (EUA, Inglaterra, Israel) que, contudo, não adotam em seus próprios países. Donald Trump toma medidas cada vez mais protecionistas em relação ao mercado global, mas no Brasil a chamada “direita” quer simplesmente abrir o país aos “investidores” internacionais. E mais: se os países de centro jamais tivessem sido estatistas e protecionistas, jamais teriam se tornado “o centro”. A questão que fica para o povo brasileiro, então, é a seguinte: queremos ser um país autônomo, capaz de uma vez ter seu centro sobre si mesmo, ou queremos ser cada vez mais escravizados por interesses de pessoas que não têm nenhum dever e nenhum amor para conosco?

Mais uma vez, não é Bolsonaro nem Lula, nem Amoêdo nem outra porcaria dessas mesmas de sempre que têm um olhar beneficamente decisivo para nosso país. É Ciro Gomes, que se esforçará em desenvolver um aparato de segurança e de inteligência robusto para competir com a NSA, a CIA e o próprio FBI em seu exemplo interno, para eliminar não apenas os traficantes das favelas, mas os barões do tráfico dos bairros nobres, que financiam políticos e jornalistas para defenderem interesses deles. É ele, que pretende chamar a China para uma conversa entre duas nações que visam seus próprios interesses, buscando um equilíbrio justo nas negociações; com a China, Ciro visa recuperar uma boa parte da indústria do nosso país, em troca dos minérios que o Brasil já envia para os chineses. É ele, que pretende refinanciar as forças armadas e construir uma indústria bélica genuinamente brasileira para competir com todas as potências mundiais com o fim de defender os interesses dos brasileiros dentro do seu país e fora dele, por meio da persuasão. É ele, que pretende refinanciar as universidades para desenvolver tecnologias brasileiras, sem as quais absolutamente nada, nem sequer a fundição de metal para a manufatura de um prego, seria possível. É ele, que pretende investir em escolas em todo o país para desenvolver um amplo sistema de formação (Bildung, Paideia) nacional, onde certamente o orgulho da pátria e o amor familiar e conjugal serão recuperados, sem os quais uma civilização simplesmente morre, como aconteceu com Roma, que terminou em chacina generalizada para benefício de elites mercantis e internacionais.

Conclusão

Nesse texto, quisemos apresentar alguns aspectos que devem servir para o brasileiro refletir, sem os quais não haverá solução para absolutamente nada. É preciso de cérebros e filósofos, e é preciso também de homens corajosos, para defender nossa soberania e restaurar uma saúde espiritual no país como um todo.

Quando enaltecemos a figura de Ciro Gomes, não é porque somos “do partido do Ciro”. Muito pelo contrário, abominamos essa abordagem para com os políticos. Não há que ser fanático ao ponto de se tornar cego. Pois, quando fizemos elogios ao candidato Ciro Gomes, é por tudo quanto ele tem defendido até então; ele representa, de fato, uma saída concreta para os problemas do Brasil. Ele não é a solução em si, não buscamos nele a salvação da pátria. Mas ele é um elemento de suma importância para que possamos algum dia respirar aliviados e tomar forças para, quem sabe no futuro, poder reconstruir nossa pátria.

Pelos mesmos motivos, devemos olhar para a história e observar os pontos positivos de Enéias Carneiro, de Leonel Brizola, Getúlio Vargas, sem perder de vista seus pontos negativos ou anacrônicos, que deverão ser corrigidos aqui e ali em projetos futuros. A Campanha da Legalidade do Brizola deve servir de exemplo para todos nós, brasileiros, da coragem de um homem firme, inteligente e amoroso. E isto é sacro, e isto é belo!

Si vis pacem para bellum

sexta-feira, 23 de março de 2018

O que representa a candidatura de Ciro Gomes

Image result for ciro gomes nacionalismo
Ciro Gomes e Leonel Brizola
Por Leonardo Benitz

Diante da grave crise que assola o país, que deixou de ser somente econômica, tornando-se política, institucional e social, onde os grandes poderes da mídia, baronato e bancos digladiam-se oferecendo cada um a sua própria narrativa. Narrativa que oculta um jogo de interesses muitas vezes difícil de ser compreendido até por um estudioso do assunto quanto mais para a grande maioria da população que, fatalmente, torna-se refém das simplificações grosseiras e das reações emocionais a uma situação justamente percebida como insuportável. Uma situação caótica é sempre propícia ao surgimento não somente de arrivistas políticos, mas de ideários estrangeiros propagados por parcela da elite ligada aos interesses internacionais que procura mistificar sua dominação sobre o restante do povo. 

Uma das simplificações mais comuns, com maior adesão por parte de grande parcela da população que está irritada, talvez a mais perigosa dela, é aquela que liga o protagonismo, ainda que atualmente deprimido, que o Estado tem na economia com escândalos de corrupção, ineficiência, burocracia excessiva, e que, portanto, o Estado deveria ser mínimo, isto é, apenas louvar pela aplicação sadia das regras do mercado, e, no máximo, realizar um papel de assistência social, apequenar-se. Acreditar que um país de proporções continentais como o Brasil, com uma das desigualdades mais brutais do mundo, onde 6 pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de pessoas como mostram os dados de pesquisa recentemente realizada pela ONG britânica Oxfam, deve relegar seus problemas a espontaneidade do mercado é inocência ou má-fé. Dentre as duas opções, acredito que a primeira ocorre na grande parte do povo que propaga esse ideário por ignorância e por despercebidamente introjetar valores contrários aos seus próprios interesses através da intoxicação midiática, enquanto a segunda, que tem representantes de peso nos grandes órgãos midiáticos e instituições empresariais e bancos, que age de forma organizada para fazer com que seus interesses tenham aparência de ciência neutra e objetiva, merece ser analisada com mais cuidado. 

Para compreender esse movimento, devemos notar que, no caso específico brasileiro, a ideia já datada do neoliberalismo volta com força, após um breve período de experimentação com os governos de esquerda da América Latina que, na maior parte dos casos, entraram em descrédito. Essa ideia é datada porque os próprios órgãos de governança global que fizeram parte da propagação do ideário do Consenso de Washington, como o FMI, Banco Mundial e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, já a criticaram em relatórios recentes. O relatório "Neoliberalism:Oversold?" lançado por três economistas do FMI em junho de 2016, estabelece que as políticas de austeridade defendidas ; com base na ideia de rigidez orçamentária dos gastos do governo prejudicou a demanda e aprofundou o desemprego, a remoção das restrições do fluxo de capital -- abertura financeira -- contribuiu para o aumento da desigualdade e do número de crises financeiras, e, para fechar o caixão dessa ideologia, concluíram que o aumento da desigualdade tem efeitos negativos sobre o crescimento de longo-prazo, observação substanciada por novo artigo escrito em fevereiro de 2017, onde há um gráfico que evidencia uma correlação negativa entre desigualdade e crescimento de longo-prazo. Deve-se atentar para a gravidade dessa observação, ou seja, instituições criadas para (fato brilhantemente demonstrado por John Perkins em seu livro "Confissões de um Assassino Econômico", onde o autor narra a estratégia realizada pelo Banco Mundial que, a serviço dos Estados Unidos, realiza empréstimos para países em desenvolvimento procurando escravizá-los por dívidas, lançando-os, de forma subalterna, na esfera do poderio norte-americano) e por países ricos (em reunião realizada pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que ficou conhecida como Conferência de Bretton Woods em 1944) estão nos alertando sobre os efeitos perniciosos da desigualdade e da liberalização econômica. A indagação que fica é: se os ouvimos no passado (através da doutrina neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso) por que não os ouvimos agora? 

A ideia de que o Estado não deve ter protagonismo no combate à desigualdade e desenvolvimento econômico e a economia nacional deve ser aberta ao mundo, não é uma ideia antiga. Como habilmente demonstrado pelo economista Ha-Joon Chang, os Estados Unidos, hoje o campeão mundial do liberalismo, já foram submetidos a pressões estrangeiras para liberalizar-se, no seu caso, por ninguém menos do que o ilustre pai da economia moderna Adam Smith. Vejamos suas observações contidas no livro A Riqueza das Nações: 

` "Se os americanos, seja mediante boicote, seja por meio de qualquer outro tipo de violência, suspenderem a importação das manufaturas europeias aos seus compatriotas capazes da fabricar os mesmos bens, desviando uma parcela considerável de capital para esse fim, estarão retardando o futuro crescimento do valor do seu produto anual, em vez de acelerá-lo, e estarão obstruindo o progresso do país rumo à riqueza e à grandeza verdadeiras, em vez de promovê-lo" 

Em outros escritos considera o futuro do país norte-americano como de uma economia agrária como a Polônia, proposta muito similar àquela recomendada atualmente por economistas liberais como Marcos Lisboa à nação brasileira. É preciso ressaltar que os Estados Unidos não apenas sonoramente rejeitaram esse conselho, e seguiram o conselho do Secretário do Tesouro americano Alexander Hamilton, tornando-se os campeões mundiais do protecionismo até meados do século XX, desenvolvendo o ensino público, investindo em infraestrutura através da concessão de terras e subsídios às empresas ferroviárias, como através de golpes de estado e intervenções em países como Havaí, Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua, Honduras, Guatemala, Irã, Vietnã, Chile e mais recentemente Iraque e Líbia, também expandindo seu poderio no Leste Europeu através da OTAN, consolidaram seu lugar como a potência hegemônica ocidental desbancando seu antecessor, a Inglaterra, tudo isso com a presença de um mastodôntico aparato militar que consumiu 611 bilhões de dólares em 2016, valor superior aos 595 bilhões de dólares dos oito países com os maiores gastos em defesa juntos no mesmo ano de acordo com dados da Peter G. Peterson Foundation. Deixa-se sem passar que indústrias nas quais os EUA se mantêm na vanguarda internacional como de computadores, internet e aeroespacial não seriam possíveis sem a P&D militar financiada pelo governo americano, como muito bem apontado pela economista Mariana Mazzucato em seu livro "O Estado Empreendedor": "a maioria das inovações radicais revolucionárias, que alimentaram a dinâmica do capitalismo -- das ferrovias à internet, até a nanotecnologia e farmacêutica modernas -- aponta para o Estado na origem dos investimentos empreendedores mais corajosos, incipientes e de capital intensivo", até mesmo o Iphone que é propalado como fruto da genialidade empreendedora do Steve Jobs não teria sido possível sem a utilização de tecnologias financiadas pelo governo como o GPS, tela sensível ao toque, mecanismo de reconhecimento de voz. O que não falta na sede do pensamento liberal é, ironicamente, Estado. 

Poder-se-ia analisar com tranquilidade a experiência histórica de qualquer outro país desenvolvido, seja a Coréia do Sul com sua reforma agrária radical, a criação da usina siderúrgica POSCO construída à contragosto do Banco Mundial, os planos quinquenais estabelecidos pelo General Park, seja no Japão com a Restauração Meiji de 1868 e seu programa de modernização, até a Alemanha de Bismarck que teve um papel pioneiro na introdução do seguro de acidente industrial (1871), seguro saúde (1883), e as pensões estatais (1889), ou até mesmo a Inglaterra, com as barreiras protecionistas impostas para proteger as manufaturas têxteis de algodão e as reformas protecionistas introduzidas pelo primeiro primeiro-ministro britânico Robert Walpole em 1721, que ao defendê-la em discurso do trono ao Parlamento observou que "é evidente que nada contribui mais para promover o bem-estar público do que a exportação de bens manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira". Os exemplos da experiência histórica comparada são infindáveis, e unanimemente eles atestam para a centralidade do papel do Estado no desenvolvimento econômico, portanto, agora aproximando-se mais da realidade e do futuro brasileiros, acredito ser imperativo que se escolha um candidato ciente desses temas na eleição de 2018, e proposto a restaurar o papel do Estado na economia brasileira. 

Necessita-se contextualizar o momento pré-eleição de 2018; o Brasil enfrenta a maior crise da sua história com diversos estados quebrados, os partidos políticos tradicionais desacreditados pela corrupção, tudo isso deflagrado pela crise econômica que ocorreu com a redução do crescimento da China que provocou uma queda nos preços das nossas principais exportações, as commodities, como minério de ferro, trigo, soja, junto com a queda do preço do barril de petróleo. Em 2016, após um processo de impeachment ilegítimo, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência e anuncia reformas de desmonte do Estado brasileiro e de entrega do patrimônio nacional, atendendo aos interesses do empresariado apátrida e dos bancos brasileiros e estrangeiros, aprovando a reforma trabalhista que alterou 100 itens da CLT (a mando de lobistas de bancos, indústrias e transportes), enfraquecendo a Justiça do Trabalho, fazendo com que o negociado prevaleça sobre o legislado, como se o empregado estivesse em posição de igualdade efetiva com o empregador, covardemente vendendo os campos de exploração do pré-sal para multinacionais como a Shell, num momento em que os preços do barril de petróleo estão prestes a subir, anunciando um programa de privatizações de 57 empresas estatais incluindo a Casa da Moeda e a Eletrobrás, e, sua obra magna, a Emenda Constitucional 95 que estabelece o teto dos gastos de acordo com a inflação por um período de 20 anos, contendo apenas as despesas primárias (isto é, as que não incluem os juros), privilegiando os rentistas brasileiros à custa de gastos que atendem, ainda que precariamente, a maioria da população como saúde e educação, tudo isso num cenário de desemprego alto remediado por uma crescente informalidade, que garante um sustento com salários e condições baixas de trabalho a uma parcela crescente da população... 

Diante desse péssimo cenário, nós, eleitores, temos que fazer uma escolha que será fatídica no dia da eleição, definindo, rompimentos antidemocráticos à parte, a forma como país sairá ou tentará sair dessa crise. Com o provável impedimento da participação de Lula, vítima de uma perseguição jurídica que, deixando de lado ódios e paixões, curiosamente não encontra paralelos com qualquer político tucano, representando o candidato mais popular da esquerda, líder nas pesquisas, provavelmente teremos uma predominância de candidatos de centro-direita a direita, com nomes como Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro despontando, todos adotando uma percepção neoliberal dos problemas do Brasil; Bolsonaro, com uma retórica nacionalista, no entanto, uma prática não condizente com o discurso, exemplificado perfeitamente pelo episódio simbólico da continência batida à bandeira americana em sua viagem aos Estados Unidos, e também por sua provável escolha para ministro da fazenda, Paulo Guedes, um dos fundadores do Instituto Millenium que recebe financiamento do Bank of America e do grupo RBS. E temos, pela centro-esquerda, a candidatura de Ciro Gomes pelo PDT. Ciro Gomes é conhecido publicamente pela sua inteligência e habilidade retórica, mas sua valentia e coerência também são qualidades que devem ser ressaltadas. Já em livro escrito em 1996, em parceria com o professor Roberto Mangabeira Unger, chamado "O Próximo Passo", apresentava uma proposta alternativa ao neoliberalismo, denunciando a utilização peremptória de juros escorchantes e câmbio sobrevalorizado como expediente de combate a um processo inflacionário que já havia sido superado e que havia se tornado um entrave para o desenvolvimento econômico do país. As propostas do Ciro para essas questões seriam, como relevadas recentemente pelo seu assessor econômico Nelson Marconi, trazer a taxa de câmbio para um patamar condizente com a competitividade das exportações brasileiras entre R$3,80 e R$4, e uma taxa de juros mais baixa, espelhando-se nas experiências dos Estados Unidos e Europa em que a taxa de juros real chega a ser negativa. 

Pode-se concluir que muita coisa mudou para não mudar nada, o problema dos juros continua sendo central na economia brasileira, tendo consumido 1.130.149.667.981,00 (1,13... trilhão) de reais que representa 43,94% do Orçamento Geral da União em 2016 de acordo com dados do Tesouro Nacional. Para ter-se uma medida de comparação, gastou-se 3,90% em Saúde e 3,70% em Educação. O povo brasileiro deve tomar conhecimento de quem manda no país. De acordo com dados publicados pelo IBGE, em 2017 a participação da indústria no PIB caiu para 11,8% retrocedendo aos níveis de 1950; parte desse problema foi ocasionado pelo alto custo do capital provocado por altas taxas de juros, e a outra faceta desse problema é o câmbio sobrevalorizado, abordado anteriormente, que torna nossas exportações menos competitivas e aumenta o custo das importações, provocando um déficit na balança comercial, desnacionalizando nossa indústria. 

Em termos mais categóricos, Ciro define-se como um Nacional-Desenvolvimentista, isto é, defende um projeto no qual um Estado fortalecido promove o desenvolvimento econômico de uma sociedade, algo que não seria atingido caso fosse deixado por conta do mercado. Acredita-se que o artigo deixou bem claro que essa é a experiência vivida por grande parte dos países avançados até mesmo aqueles que propagam a retórica neoliberal. Em termos geopolíticos, Ciro Gomes já se manifestou favorável à construção de um mundo multipolar, repudiando as intervenções unilaterais americanas recentes no Iraque, Afeganistão e Líbia, comemorando o surgimento e protagonismo de Vladimir Putin na Síria como uma forma de equilíbrio e alívio para o mundo que assistiu horrorizado à criação de um cenário caótico no Oriente Médio e o renascimento dos movimentos terroristas islâmicos amplamente financiados por governos ocidentais. Ciro Gomes apresenta uma respeitável compreensão de que, a despeito de todo tipo de retórica sobre paz e liberdade, a ordem mundial é assentada na força e na violência, portanto, um mundo multipolar, com a crescente importância da Rússia e a ascensão econômica da China, poderia conter as arbitrariedades cometidas pelos americanos, e beneficiar até mesmo o Brasil, livrando-nos de intervenções e pressões unilaterais de um país que historicamente considerou a América Latina como seu quintal, e o mundo inteiro como seu. 

Portanto, está na ordem do dia uma redução do oneroso encargo da dívida pública através de uma auditoria e da diminuição do nível de taxa de juros a um patamar condizente com a perspectiva de desenvolvimento industrial nacional, uma reforma tributária estabelecendo uma taxação progressiva, recuperando a sanidade fiscal do Estado que, empoderado, possa assumir seus deveres e retomar seu papel de protagonismo no desenvolvimento econômico e combate à desigualdade através de um projeto nacional-desenvolvimentista. O repúdio a qualquer ideologia estrangeira propagada pelo império e seus representantes, isso é o neoliberalismo, que propõe aos estados subdesenvolvidos uma liberalização econômica que ele mesmo não realizou, ou seja, como bem descrito pelo economista alemão Friedrich List, chuta a escada pela qual subiu, deixando os subdesenvolvidos permanentemente no andar de baixo. 

Uma integração da iniciativa privada, universidades e Estado, no desenvolvimento de tecnologias, tornaria o país menos dependente de insumos externos normalmente dolarizados. A luta deve ser pelo estabelecimento de uma ordem geopolítica multipolar, em que o Brasil possui um papel relevante, deixando de ser um celeiro para os países ricos e um reprodutor de manuais propagados pela metrópole e seus órgãos globais, e lute para a formação de polos de poder que distribuam melhor a capacidade de decisão em assuntos internacionais. 

No presente momento o candidato que possui um histórico e um discurso alinhado com esse ideário é o Ciro Gomes, portanto, como se tentou demonstrar no presente artigo, aqueles brasileiros que não se deixam dobrar pelo discurso dominante devem apoiá-lo nas eleições de 2018.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A necessidade de um novo revisionismo histórico

Por Marcelo Gullo Omodeo*
Caricatura do imperialismo inglês,
como um polvo que controla o mundo, do final do século XIX

"A `guerra da independência da Espanha´ foi um fracasso não somente como sustentavam os homens da geração do ‘900, por não conseguir configurar politicamente a grande nação hispano-americana, mas, também, porque as diferentes repúblicas que surgiram, produto da fragmentação dos diferentes Vice-reinados, passaram da dependência formal da Espanha à dependência informal da Grã-Bretanha(...) o instrumento principal, através do qual a Inglaterra havia conseguido a subordinação ideológico-cultural da América espanhola e da Argentina em particular, havia consistido na ``falsificação da história"

Apresentada no primeiro congresso de revisionismo histórico Manuel Dorrego, celebrado em Navarro(província de Buenos Aires), em 14 de maio de 2011.

A vulnerabilidade ideológica

A hipótese sobre a qual repousam as Relações Internacionais, como sustenta Raymond Aron, é dada pelo fato de que as unidades políticas se esforçam em impor, umas às outras, suas vontades.
[1] A Política Internacional compõe-se, sempre, de uma luta de vontades: vontade para impor ou vontade para não se deixar impor a vontade do outro.

Para impor sua vontade, os Estados mais poderosos tendem, num primeiro momento, a tentar impor sua dominação cultural. O exercício da dominação de não encontrar uma resistência adequada por parte do Estado receptor provoca a subordinação ideológico-cultural, e como resultado, o Estado subordinado sofre de uma espécie de síndrome de Imunodeficiência ideológica, assim, o Estado receptor perde até sua vontade de defesa. Podemos afirmar, seguindo o pensamento de Hans Morgenthau, que o objetivo ideal ou teleológico da dominação cultural, em suas palavras, ``imperialismo cultural[2], consiste na conquista das mentalidades de todos os cidadãos que fazem a política do Estado em particular e a cultura do cidadão em geral, ao qual quer subordinar.Porém para alguns pensadores, como Juan José Hernández Arregui a política de subordinação cultural tem como finalidade última não só a ``conquista das mentalidades´´ mas a destruição do ``ser nacional´´ do Estado sujeito à política de subordinação. E ainda que geralmente, segundo Hernández Arregui, o Estado emissor da dominação cultural (o ``Estado metrópole´´ em termos de Hernández Arregui), não consegue o aniquilamento do ser nacional do estado receptor, o emissor consegue criar no receptor, ``… um conjunto orgânico de maneiras de pensar e de sentir, uma visão de mundo extremada e sutilmente fabricada, que se torna em atitude `normal´ de conceitualização da realidade [que] se expressa como uma consideração pessimista da realidade, como um sentimento generalizado de desânimo, de falta de segurança perante a si próprio, e na convicção de que a subordinação do país e sua des-hierarquização cultural, é uma predestinação histórica, com seu equivalente, a ambígua sensação de incapacidade congenita do povo em que nasceu e que só a ajuda estrangeira pode o redimir.´´[3]

É preciso destacar que, embora o exercício de subordinação cultural por parte do Estado emissor não consiga a subordinação ideológica total do Estado receptor, pode condenar profundamente a estrutura de poder deste último. Realiza-se por meio do convencimento de uma parte importante da população, uma vulnerabilidade ideológica que resulta ser -em tempos de paz – a mais grave e perigosa das vulnerabilidades possíveis para o poder nacional porque, ao condicionar o processo da formação de visão do mundo de uma parte importante dos cidadãos e da elite dirigente, condiciona, portanto, a orientação estratégica da política econômica, da política externa e, o que é mais grave ainda, corroe a autoestima da população, debilitando a moral e o caráter nacional, ingredientes indispensáveis - como ensinara Morgenthau – do poder nacional necessário para levar adiante uma política tendendo a alcançar os objetivos de interesse nacional.

Sobre a importância que a subordinação cultural teve e têm para o sucesso da imposição da vontade das grandes potências, refere-se Zbigniew Brzezinski: ``O Império Britânico de ultramar foi adquirido inicialmente mediante uma combinação de explorações, comércio e conquista.Porém, de uma maneira mais semelhante a de seus predecessores romanos e chineses ou de seus rivais franceses e espanhóis, sua capacidade de permanência derivou em grande parte da percepção da superioridade cultural britânica.Essa superioridade não era só uma questão de arrogância subjetiva por parte da classe governante imperial, mas uma perspectiva compartilhada por muitos dos súditos não-britânicos. [...] A superioridade cultural, afirmada com êxito e aceitada com calma, teve como efeito a diminuição de depender de grandes forças para manter o poder do centro imperial.Antes de 1914 só uns poucos milhares de militares e funcionários britânicos controlavam ao redor de sete milhões de quilômetros quadrados e quase quatrocentos milhões de pessoas não-britânicas.´´ [4]

A subordinação ideológico-cultural produz, nos Estados subordinados uma ``superestrutura cultural´´ que forma um verdadeiro ``teto de vidro´´ que impede a criação e a expressão do pensamento anti-hegemônico e o desenvolvimento profissional dos intelectuais que expressam esse pensamento. O uso que aqui damos a expressão ``teto de vidro´´ pretende representar a limitação invisível para o progresso dos intelectuais anti-hegemônicos, tanto nas instituições culturais como nos meios de comunicação de massa. [5]

O surgimento do pensamento nacional

Em alguns dos estados que foram submetidos pelas potências hegemônicas a uma política de subordinação cultural surge, como reação, um pensamento anti-hegemônico que leva adiante uma insubordinação ideológica que é, sempre, a primeira etapa de todo processo emancipatório exitoso. Quando esse pensamento anti-hegemônico consegue se traduzir em uma política de estado, então, se inicia um processo de ´´insubordinação fundadora`` [6] que, ao ser exitoso, consegue romper as cadeias que prendem o Estado, tanto cultural, econômica e politicamente, com a potência hegemônica.

Na Argentina o pensamento anti-hegemônico foi designado pelos seus próprios protagonistas como ``Pensamento Nacional´´ por contraposição ao pensamento produzido pela subordinação cultural, pensamento, este último, ao que denominaram implicitamente, como ´´Pensamento Colonial”. O pensamento colonial, para os homens do pensamento nacional, dava origens a partidos políticos, de esquerda ou de direita, que não questionavam a estrutura material nem a superestrutura cultural da dependência.

Portanto, poderia haver, nos termos expressados por esses mesmos homens do pensamento nacional, tanto uma direita como uma esquerda ´´mercenárias``.

A geração do ‘900 e a primeira insubordinação ideológica

Na América Latina, a primeira insubordinação ideológica foi protagonizada pelos homens da chamada Geração do ‘900, cujas figuras mais representativas foram o uruguaio José Enrique Rodó[7] (1871-1917), o mexicano José Vasconcelos[8] (1882-1959) e o argentino Manuel Ugarte (1875-1951).Eles concluíram que o processo de rebelião colonial hispano-americana iniciado em 1810, havia sido, em realidade, um ´´grande fracasso``, porque ao contrário do processo de rebelião colonial protagonizado pelas Treze Colônias norte-americanas, não havia terminado na ´´Unidade``, isto é, na conformação de um único Estado, mas pelo contrário - a diferença dos desejos e esforços de seus principais heróis, Artigas, San Martín, Belgrano, O’Higgins, Bolívar e Sucre – na fragmentação da nação hispano-americana. [9]

Esta primeira insubordinação ideológica, se materializou politicamente no Aprismo fundado pelo jovem peruano Víctor Raúl Haya de la Torre (1895-1979) que formou o primeiro partido político hispano-americano cuja finalidade era a construção de um estado latino-americano que abarcaria desde o Rio Grande à Tierra del Fuego, abraçando uma ideologia concreta, o pensamento daqueles homens da Geração do ‘900. [10]

A Geração Revisionista e a segunda insubordinação ideológica

A segunda insubordinação ideológica, melhor localizada geograficamente, porém talvez, mais intensa do ponto de vista conceitual originada no Rio da Prata, foi protagonizada por aqueles homens a quem podemos chamar de ´´ A Geração Revisionista``. Ao falar dessa Geração é imprescindível mencionar seus mais destacados integrantes como foram os argentinos Arturo Jauretche (1901-1974), Raúl Scalabrini Ortiz (1899-1959), José María Rosa (1906-1991), José Luis Torres (1901-1965), Arturo Sampay (1911-1977), Rodolfo Puiggrós (1906-1980), José Hernández Arregui  (1913-1974), Jorge Abelardo Ramos (1921-1994), Fermín Chaves (1924-2006), os uruguaios Washington Reyes Abadie (1919-2002), Vivian Trías (1922-1980) e o mais jovem de todos eles, Alberto Methol Ferré (1929-2009). Fora do Rio da Prata, podem também ser considerados inscritos nesta corrente, o boliviano Andrés Soliz Rada e o chileno Pedro Godoy, estes dois últimos ainda vivos.

 A ´´idéia força`` fundamental descoberta pela ´´Geração Revisionista`` que se transformará na pedra angular de todo seu pensamento, consiste em revelar que a ´´guerra de independência da Espanha`` foi um fracasso não só como sustentam os homens da Geração do ‘900, por não se conseguir configurar a grande nação hispano-americana, mas também, porque as distintas repúblicas que surgiram, produto da fragmentação dos diferentes Vice-reinados, passaram da dependência formal da Espanha à dependência informal da Grã-Bretanha; essa dependência informal da Grã-Bretanha fez que todas as Repúblicas hispano-americanas se incorporarem à economia internacional como simples produtores de matérias-primas e, ao contrário de Estados Unidos e Canadá[11], subordinadas ideologicamente, não aplicaram uma política protecionista que houvesse lhes permitido se converter, também, em medianos ou fortemente industrializados, o que, por sua vez, teria facilitado a unidade que propunham os homens do ‘900.  [12]

A Geração Revisionista é uma corrente de pensamento que descobre, também, que o instrumento principal através do qual a Inglaterra conseguiu a subordinação ideológico-cultural da América espanhola e da Argentina em particular, consistiu na ´´falsificação da história``.

É por isso que escreveu Raúl Scalabrini Ortiz:´´Se não temos presente a constante e astuta compulsão, com que a diplomacia inglesa leva estes povos aos destinos planejados e mantidos por eles, as histórias americanas e seus fenômenos sociais são narrações absurdas em que os acontecimentos mais graves ocorrem sem antecedentes e acabam sem consequência. Neles atuam anjos e demônios, não homens...a história oficial argentina é uma obra da imaginação em que os fatos foram consciente e deliberadamente distorcidos, falsificados, de acordo com um plano preconcebido que tende a dissimular o trabalho de intriga feito pela diplomacia inglesa, promotora subterrânea dos principais acontecimentos ocorridos neste continente.´´[13]

Esta simples, porém contundente citação de Scalabrini Ortiz poderia resumir de modo tão claro como é lapidário, o núcleo do descobrimento dessa série de elevadas penas ao serviço da nação: deixar claro que não só fomos desintegrados, mas que fomos para a maior glória, senhorio e riqueza da Inglaterra. Novo amo que se instalou para saquear nossos recursos, frustrar nossas ânsias de liberdade nacional e justiça para nossa gente.

E claro, como a verdade de que seguíamos sendo uma colônia, embora dependentes de outro mestre, a Grã-Bretanha, não era um filme ´´adequado para todo público``, teve-se que ´´inventar`` uma nova história, uma história que oculte, distorça e ajuste os fatos aos desígnios do novo mestre. Essa tarefa que, com maestria de veterano sofista levou adiante Bartolomé Mitre, depois da batalha de Caseros, foi difundida pela escola pública e pelos programas oficiais: ´´A história que nos ensinaram desde pequenos, a história que nos inculcaram como uma verdade que já não é analisada, pressupõe que o território argentino flutuava beatificamente no seio de uma matéria angélica. Não nos cercava nem avidezas nem cobiças estranhas. Tudo de ruim que aconteceu entre nós, entre nós mesmos foi engendrado...as lutas diplomáticas estiveram ausentes de nossas contenções...para esconder a responsabilidade dos verdadeiros instigadores, a história argentina adota esse ar de ficção em que os protagonistas se movem sem relação com as duras realidades desta vida. As revoluções são explicadas como simples explosões passionais e ocorrem sem que ninguém forneça fundos, viveres, munições, armas, equipamentos. O dinheiro não está presente nelas, porque rastreando as pegadas do dinheiro pode-se chegar a descobrir os principais mobilizadores revolucionários... essa história é a maior inibição que pesa sobre nós. A reconstrução da história argentina é, por isso, urgente, inevitável e impostergável.`` [14]

Conhecer a existência de uma verdade diferente da ´´oficial``, como bem aponta Scalabrini Ortiz, no parágrafo anterior, para aqueles homens torna-se impostergável o trabalho de ´´descobrir`` a história verdadeira, a história que nos relegava a servos e nos atava ao destino da potência que, sorrateiramente, nos dominava. Não podiam aqueles homens de política e caneta, deixar de encarar a tarefa de estabelecer, sobre bases sólidas, os princípios ocultos, aquelas premissas que nos levarão a conclusões verdadeiras, longe da falácia mitrista e perto do conhecimento de nossa realidade e de nossos problemas reais, para que munidos de verdades, encaremos a solução dos verdadeiros problemas. Era para isso, necessário revisar (e refutar documentos em mão) a farsa mitrista, alheia à verdade. A essa tarefa se dedicaram, principalmente, entre outros, José Maria Rosa, Jorge Abelardo Ramos e Fermín Chávez.

Segundo Arturo Jauretche, a falsificação da história argentina, prosseguiu como propósito: ´´Impedir, através da desfiguração do passado, que os argentinos possuam a técnica, a atitude para conceber e realizar uma política nacional... desejando que ignoremos como uma nação é construída e como sua formação autêntica é prejudicada, para que ignoremos como se conduz, como se constrói uma política de fins nacionais, uma política nacional... não é pois um problema de historiografia, mas de política: o que nos apresentaram como história é uma política da história em que essa, é só um instrumento de planos mais vastos destinados precisamente a impedir a história, a verdadeira história, com a formação de uma consciência histórica nacional que é a base necessária de toda política da nação... a política da história falsificada é, e foi, a política da anti-nação, da negação do ser e de suas próprias possibilidades, é incontestável, por outro lado, que a verdade histórica é o antecedente de qualquer política que se defina como nacional, e todos terão de concordar na necessária destruição da falsificação que tem impedido que nossa política exista como coisa própria, como criação própria, para um destino próprio.`` [15]

A necessidade de um Novo Revisionismo Histórico para a concretização da nossa segunda independência

Enquanto que a primeira insubordinação ideológica dos homens da Geração do ‘900, materializou-se politicamente no aprismo, a segunda insubordinação ideológica, protagonizada pelos homens da Geração Revisionista, materializou-se no peronismo que iniciou, em 1945, um processo de Insubordinação Fundante que foi abortado, quando produzido, dez anos depois, induzido pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, o golpe de estado que derrubou o governo constitucional de Juan Domingo Perón (1895-1974). Caído o peronismo, foi vítima, como havia sido, em sua época, o rosismo [16], da falsificação da história, e se apresentou o governo peronista, como um governo ´´populista``, a Perón como um General fascista e a seu grande amor e companheira, María Eva Duarte de Perón, Evita (1919-1952), como uma ´´revolucionária``, oposta ao General burguês que era incapaz de levar adiante a revolução, criando, dessa forma o ´´evitismo`` como forma superior do anti-peronismo.[17].

Foi então, que os homens da Geração Revisionista, empreenderam a tarefa de reivindicar o peronismo, como já haviam feito com o rosismo, porém sua tarefa permaneceu inconclusa porque, muitos destes homens de caneta e política, os surpreendeu, antes, a morte. Concluir essa tarefa, é a missão inevitável do Novo Revisionismo Histórico.

*Marcelo Gullo nasceu na cidade de Rosário em 1963. Nos primeiros meses de 1981, começou sua militância política contra a ditadura militar. Doutor em Ciência Política pela Universidade del Salvador, Bacharel pela Universidade Nacional de Rosário, Graduado em Estudos Internacionais pela Escola Diplomática de Madri, obteve o Diploma de Estudos Superiores em Relações Internacionais, especialização em História e Política Internacional, pelo ´´ Institut Universitaire de Hautes Etudes Internationales`` da Universidade de Genebra. Discípulo do cientista político brasileiro Helio Jaguaribe e do sociólogo e historiador uruguaio Alberto Methol Ferré, publicou numerosos artigos e livros e é acessor em matéria de Relações Internacionais da Federação Latino-americana de Trabalhadores da Educação e da Cultura (FLATEC) e professor de História Argentina na UNLa (Universidade Nacional de Lanús).


[1] Ver Aron, Raymond, Paix et guerre entre les nations (avec une presentation inédite de l’auteur), Paris, Ed. Calmann-Lévy, 1984.

[2] Hans Morgenthau define o imperialismo cultural do seguinte modo: ´´Se alguém pudesse imaginar a cultura e, mais particularmente, a ideologia política de um Estado A com todos seus objetivos imperialistas concretos em processo de conquistar as mentalidades de todos os cidadãos que fazem a política de um estado B, observaríamos que o primeiro dos estados teria conquistado uma vitória mais que completa e teria estabelecido seu domínio sobre uma base mais sólida que a de qualquer conquistador militar ou amo econômico. O Estado A não precisaria ameaçar com a força militar ou usar pressões econômicas para alcançar seus fins. Para isso, a subordinação do Estado B à sua vontade teria sido produzida pela persuasão de uma cultura superior e por uma maior atrativo de sua filosofia política``. Morghentau, Hans, Política entre as nações. A luta pelo poder e pela paz, Buenos Aires, Grupo Editor Latino – americano, 1986, p. 86.

[3] Hernández Arregui, Juan José, Nacionalismo e libertação, Buenos Aires, Ed. Peña Lillo, 2004, p.140.

[4] Brzezinski, Zbigniew, O grande conselho mundial. A supremacia estadunidense e seus imperativos geoestratégicos, Barcelona, Ed. Paidos, 1998, p.29.

[5] Segundo as reflexões de Gustavo Battistoni, podemos dizer que os intelectuais anti-hegemônicos, são dissidentes do sistema que, ao não aceitar as ideias hegemônicas, sofrem, como castigo, o esquecimento. Pela pressão da superestrutura cultural que, nos países subordinados, está a serviço das estruturas do poder mundial.  BATTISTONI, Gustavo, Dissidentes e esquecidos, Rosario, Ed. Germinal, 2008.

[6] Sobre o conceito de Insubordinação Fundante ver Gullo, Marcelo, A Insubordinação Fundante, Breve história da construção do poder das nações, Buenos Aires, Ed. Biblos, 2008.

[7] Foi com a geração do ‘900 que, após cem anos de solidão, se resgata, pelo menos intelectualmente, a unidade histórica da América Latina. A Geração do ‘900 foi a primeira – após o fim da guerra da independência – que concebeu a ideia de que todas as repúblicas hispânicas eram artificiais, na realidade, eram parte de uma mesma pátria dividida. Um dos membros mais destacados desta geração, o uruguaio José Enrique Rodó, foi o primeiro que, no Rio da Prata, reivindicou Simón Bolívar, e retomou a ideia bolivariana de que todas as repúblicas hispano-americanas eram apenas fragmentos de uma Pátria Grande. É, nesse sentido, que afirma Rodó, já em 1905: “Pátria é, para os hispano-americanos, a América espanhola. Dentro do sentimento de Pátria, cabe o sentimento de adesão, não menos natural e indestrutível para a província, para a região, para a comarca; e províncias, regiões ou comarcas de nossa pátria, são as nações em que ela politicamente se divide... A unidade política que consagre e encarne essa unidade moral – o sonho de Bolívar -, é ainda um sonho cuja realidade não verão talvez as gerações hoje vivas. O que importa! A Itália não era apenas a ‘expressão geográfica’ de Metternich, antes de a espada de Garibaldi e o apostolado de Mazzini a constituírem em expressão política”. RODO, José Enrique, El Mirador de Próspero, Barcelona, Ed. Cervantes, 1928, p. 170.

[8] Significativamente José Vasconcelos em 1923, por ocasião de seu discurso que pronunciou na Faculdade de Humanidades de Santiago do Chile, dia em que recebeu o grau de professor honorário, argumentou: ´´Eu vejo a bandeira ibero-americana flutuante, uma só, no Brasil, no México, no Peru e na Argentina, no Chile e no Equador, e me sinto nesta Universidade de Santiago tão encarregado de responsabilidades com o presente, como se aqui mesmo estivesse passado todos meus anos.`` Claridad, Lima, Ano 1, maio, 1923, p.2.

[9] A este respeito afirma Manuel Ugarte em sua obra ´´O futuro da América Espanhola``, os seguintes conceitos: ´´Contemplemos o mapa da América Latina. O que primeiro ressalta aos olhos é o contraste entre a unidade dos anglo-saxões, reunidos com toda autonomia que implica um regime eminentemente federal, baixo uma só bandeira, em uma nação única, e o desmantelamento do latinos, divididos em vinte nações, algumas vezes indiferentes entre si e outras hostis. Ante a tela pintada que representa o Novo Mundo é impossível evitar a comparação. Se a América do Norte, após o impulso de 1775, houvesse sancionado a dispersão de seus fragmentos para formar repúblicas independentes; se Geórgia, Maryland, Rhode Island, Nova Iorque, Nova Jersey, Connecticut, New Hampshire, Maine, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Pensilvânia houvessem se erguido em nações autônomas, comprovaríamos o progresso implausível distintivo dos Yankees? O que facilitou foi a união das treze jurisdições coloniais que se separaram da Inglaterra, jurisdições que estavam longe de apresentarem a homogeneidade que notamos entre as que se separaram da Espanha. Esse é o ponto de partida da superioridade anglo-saxã, no Novo Mundo. Apesar da Guerra da Secessão o interesse supremo se sobrepôs, no Norte, às convenções regionais e o povo inteiro se lançou ao topo, enquanto no sul, subdividíamos o esforço deslumbrados por apetites e liberdades teóricas que nos faria adormecer``. UGARTE, Manuel, O futuro da América Espanhola, Valência, Ed. F Sempere, 1911, p 110.

[10] Em 29 de junho de 1925, seguindo a convocação de José Ingenieros realizou-se uma assembléia anti-imperialista em Paris, na Maison de Savants, na rua Danton, para protestar contra a ameaça estadunidense de invadir o México. No cenário o melhor do pensamento ibero-americano. Miguel de Unamuno, José Vasconcelos, Manuel Ugarte, Eduardo Ortega y Gasset, o poeta guatemalteco Miguel Ángel Asturias, o líder estudantil uruguaio Carlos Quijano – mais tarde diretor do Semanário ´´Marcha`` - e Vítor Raúl Haya de la Torre.

O ato foi encerrado com as seguintes palavras de Vítor Raúl Haya de la Torre: ´´Um dos mais importantes planos do imperialismo é manter a nossa América dividida, América Latina unida, federada, formaria um dos países mais poderosos do mundo e seria visto como um perigo... Consequentemente, o plano mais simples é... nos dividir. O melhor instrumento para esta tarefa são as oligarquias crioulas, e a palavra mágica para a execução é ´pátria`. Pátria pequena e patriotismo pequeno, na América Latina, são as Clestinas do imperialismo. Patriotismo significa hostilidade ao vizinho, ódio, xenofobia, nacionalismo provinciano e bastardo. E sabem bem quem nos dominam na América Latina que o culto da pequena pátria é um culto suicida. Sabem bem que dividir nossa pátria com ódios é abrir as portas ao conquistador...Nossas classes dominantes atraiçoam-nos, vendem-nos, são nossos inimigos de dentro. O único caminho dos povos latino-americanos que lutam por sua liberdade é se unir contra essas classes, derrubá-las do poder, castigar sua traição. Essa é a grande missão da nova geração revolucionária anti-imperialista da América Latina. Acusar e punir os mercadores da pátria pequena e formar a pátria grande``. HAYA DE LA TORRE, Víctor Raúl, Para a Emancipação da América Latina, Buenos Aires, Ed. Gleizer, 1927, p. 108

[11] No que diz respeito a história política e econômica do Canadá, é necessário assinalar que: durante a campanha eleitoral de 1878 o líder do partido conservador John Mcdonald levantou as bandeiras do protecionismo e da industrialização. Seus adversários do partido liberal, a do destino agrário do Canadá. O partido liberal defendia mais livre comércio para a saída da crise, o partido conservador mais e mais protecionismo econômico, tudo o que os industriais necessitavam. São significativas as seguintes palavras que Mcdonald pronunciou em um encontro com industriais: ``Não posso dizer que tipo de proteção eles exigem. Porém, deixemos que cada industrial nos diga o quer, que nós trataremos de dar o que necessitam´´. Nas eleições de 1878, o velho líder conservador John Mcdonald, obteve um grande triunfo eleitoral. Em 14 de março de 1879 a Câmara dos Comuns, sancionou oficialmente a National Policy, estabelecendo desta forma uma forte política protecionista que duraria por mais de 50 anos.

[12] Diferente da Argentina que após a batalha de Caseros levantou a bandeira do livre comércio, o Estados Unidos foi, até depois da Segunda Guerra Mundial, o bastião mais poderoso das políticas protecionistas e seu lar intelectual. Em 1816, a tarifa para quase todos os produtos manufaturados era de 35%. Em 1820, a tarifa média para os produtos manufaturados era de 40 %. Em 1832, a Lei Tarifária concedeu uma proteção especial de 45% para os produtos manufaturados de lã e 50% para os tecidos de algodão. Em 1875, as tarifas para produtos manufaturados oscilavam entre 35% e 45%. Somente em 1913, houve uma diminuição das tarifas, porém a medida foi revertida um ano mais tarde, quando estourou a Primeira Guerra Mundial. Em 1922, a porcentagem paga sob produtos manufaturados de importação, subiu 30%. Em 1925, a tarifa média dos produtos manufaturados era de 37% e, em 1931, de 48%. Todavia em 1960, os Estados Unidos mantiveram uma tarifa média de 13%. A este respeito, ver Chang, Ha-Joon, Remova a escada. A estratégia de desenvolvimento em perspectiva histórica, Madrid, Ed Instituto Complutense de Estudos Internacionais (ICEI), 2004 e SEVARES, Julio, Por que cresceram os países que cresceram, Buenos Aires, Ed Edhasa, 2010.

[13] Scalabrini Ortiz, Raúl, Política Britânica no Rio da Prata, Buenos Aires, Ed. Sol 90, 2001, Págs. 46 e 47.

[14] Ibid., Pgs. 47 a 49.

[15] JAURETCHE, Arturo. Política Nacional e Revisionismo Histórico, Buenos Aires, Ed. Corregidor, 2006, p. 14 a 16.

[16] ``A ``Revolução Libertadora´´ de 1955 queria fazer com o peronismo a mesma política da história que havia feito com os federais, reforçada pelas cátedras da Educação Democrática e pelas medidas destinadas a enterrar o passado, proibindo símbolos, cânticos e retratos... Por exemplo, para prejudicar Perón, tentaram identificá-lo com Rosas e resultou que Rosas saiu ganhando porque então o povo começou a entendê-lo´´ JAURETCHE, Arturo, ``Os vencedores de Caseros não fizeram uma história da política mas uma política da história´´. Crisis, dezembro de 1973.

[17] A respeito afirma Noberto Galasso: ``Na polícia armada da frente de libertação nacional, o General necessitava de um contato direto com ‘a espinha dorsal’ - os sindicatos – e essa tarefa foi realizada por ela, que já começou a ser ‘Evita’ e deixou os luxuosos vestidos pelo terno de alfaiate... Então, veio sua viagem à Europa e ao regressar, põe em marcha a Fundação, duplicando assim a tarefa social de apoiar o movimento. Ali entregou sua vida. ‘Não foi caridade’ – recordava seu confessor, o padre Hernán Benítez -. Era preciso ficar até a madrugada para responder às cartas porque nenhum argentino deveria ficar desapontado por falta de resposta, superando a fraqueza dos 38 quilos. O povo entendeu esse amor desenfreado. A oligarquia também por isso à odiava: ‘Viva o câncer’ escreveram nas paredes. Ela, consumida pela doença, disse suas últimas palavras: ‘Obrigado, Juan’. Os evitistas de última hora jamais serão capazes de compreendê-lo, esse é o ‘evistismo anti-perón’ que como disse alguém, é o estágio superior do gorilismo.” GALASSO, Norberto, Aquela mulher, segunda-feira, 9 de maio de 2011.

Tradução: Elvis Braz Fernandes