quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Hitler na Consciência Germânica


por Emil Cioran

Nenhum político no mundo hoje inspira tanta simpatia e admiração em mim quanto Hitler. Há algo de irresistível no destino deste homem, para quem todo ato da vida tem significância apenas por sua participação simbólica no destino histórico de uma nação. Pois Hitler é um homem que não tem o que se chama de vida privada. Desde a guerra, sua vida é uma abnegação e um sacrifício. O estilo de vida de um político adquire profundidade apenas quando o desejo pelo poder e a vontade imperialista de conquistar estão acompanhados por uma grande capacidade de abnegação.

A mística do Führer na Alemanha é perfeitamente justificada. Até mesmo aqueles que se consideram adversários apaixonados de Hitler, e que dizem odiá-lo, são levados pela fluidez de sua mística que erigiu sua personalidade em um mito. Durante a conspiração de Röhm, quando nada oficial se sabia ainda, ouvi tantas pessoas que, na véspera, criticavam Hitler sem reservas, exclamando: "tenhamos esperança de que nada tenha acontecido com ele!"

Seus discursos são marcados por um pathos e um frenesi que apenas as visões de um espírito profético pode alcançar. Goebbels é mais refinado, mais sutil, tem uma ironia mais discreta, tem gestos nuanciados e toda uma aparência de um muito refinado e habilidoso intelectual, mas ele não é capaz das vulcânicas e torrenciais explosões que te privam de teu espírito crítico. O mérito de Hitler foi ter despojado uma nação de seu espírito crítico. Pode-se dinamizar algo, pode-se criar efervescência apenas enquanto se privar os homens daquela liberdade que é sua distância entre uns e outros e entre si mesmo [entre eux et soi]. A fecundidade de uma visão é revelada apenas por sua habilidade para seduzir. Ser capaz de acusar de irresponsabilidade aqueles que escolheram outro caminho, eis o destino dramático e a responsabilidade de um visionário, um ditador e um profeta. 

Com Hitler, a habilidade de seduzir é tanto mais impressionante naquilo que não é assistido pelo charme de uma fisionomia expressiva. Seu rosto nunca expressou nada mais do que energia e tristeza. Porque deve-se apenas saber: Hitler é uma pessoa triste. Esta tristeza deriva de demasiada seriedade. Isto caracteriza todo o povo germânico, um povo desesperadamente sério, comparadas com o qual as nações latinas são de algazarra.

Tive a oportunidade de testemunhar um dia, em Berlim, um tipo de êxtase coletivo diante do Führer. Durante uma celebração, no momento em que Hitler estava passando no Unter den Linden, a população se precipitou e circundou seu carro, sem ser capaz de pronunciar uma única palavra, paralisada. Hitler é tão enraizado na consciência germânica que deveria ser um grande desapontamento para as pessoas terem que deixar adorá-lo. É perfeitamente curioso ver que Hitler ganhou ainda mais confiança da nação depois da crise recente do partido.

Aqueles que falam reservas sobre ele fazem menção à sua "falta de cultura". Como se, para liderar uma nação, fosse necessário citar Goethe a cada discurso! O que importa é uma infinita vibração da alma, uma absoluta vontade de realização na história, uma intensa exaltação ao absurdo, um élan irracional ao sacrifício da própria vida. Admitamos que, nas ditaduras da Europa hoje esta grande tensão está presente. É necessário se tornar um poder. Nós devemos também seriamente nos questionar se nações pequenas podem avançar sem recorrer [passer par] à ditadura.

É igualmente verdadeiro que as ditaduras representam as crises do espírito. Cada uma marca um vazio no progresso histórico da cultura. Um justo número de Nacional Socialistas concede isto. Carência de universalidade, eis o problema da cultura germânica. E o Nacional-Socialismo fez até mesmo a ilusão de uma universalidade desaparecer. Julgando-a de um ponto de vista estrito, é um movimento de uma magnitude espantosa. Um dinamismo extraordinário dimensionou a nação e imprimiu sobre ela um ritmo de intensidade inaudível. Em apenas um ano, o Nacional-Socialismo criou mais que o Fascismo em dez. Mussolini é talvez mais prendado que Hitler, mas não esqueçamos que Hitler lutou mais, que ele encontrou dificuldades incomparáveis, e que o destino da Alemanha é infinitamente mais complexo e dramático que o da Itália. Uma genuína tragédia social está acontecendo na Alemanha: nas atuais condições, é humanamente impossível derrotar o desemprego. A tensão nacional é tão grande que, dada a impossibilidade de trazer soluções imediatas e concretas para muitos problemas insondáveis no momento, persiste-se em uma atmosfera de "dinâmica perpétua" cujos perigos foram realçados por [Vice Chanceler Franz] von Papen em seu discurso de Marburg, uma dura crítica ao regime feita em nome da oposição católica.

A oposição dos católicos é inegavelmente grande. O papa, tendo proibido os jovens católicos de se unir à Juventude Hitlerista (Hitler-Jugend), a pressão hitlerista e as reações levaram a sérios conflitos com os católicos. Os bávaros, que são fortemente católicos praticantes, não hesitariam um instante se eles tivessem que escolher entre sua fé e o Nacional-Socialismo.

Mas Hitler significa mais para o povo germânico do que não-sei-que papa que se envolve em assuntos internos de um povo em nome de uma cristandade trivializada pela política e chamada de catolicismo.

Hitler apaixonadamente incendiou as lutas políticas e dinamizou por uma inspiração messiânica todo um domínio de valores que o racionalismo democrático tornou chato e trivial. Nós todos precisamos de um místico, pois estamos todos cansados de tantas verdades que não estouram das chamas.

Munique, 4 de julho, 1934.
 
Emil Cioran, Apologie de la Barbarie: Berlin-Bucarest (1932–1941) (Paris: L’Herne, 2015), “Hitler dans la conscience allemande,” 129–33. Primeiramente publicado em Vremea, 15 de julho, 1934.

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